terça-feira, 16 de novembro de 2010

O menino do pijama listrado - cap. 2 [A casa nova]

A CASA NOVA
Quando Bruno viu a casa nova pela primeira vez, seus olhos se arregalaram, a boca fez o formato de um O, e os braços penderam estendidos ao lado do corpo novamente. Tudo nela parecia ser o oposto da casa antiga, e ele não podia acreditar que eles iriam de fato morar lá.
A casa de Berlim ficava numa rua calma ao longo da qual havia mais um punhado de casas grandes como a dele, e era sempre agradável olhar para elas, porque eram quase iguais à sua própria, mas não exatamente, e nelas moravam outros meninos com quem ele brincava (se fossem amigos) ou de quem mantinha distância (se fossem encrenca) A casa nova, no entanto, ficava isolada num lugar vazio e desolado, e não havia nenhuma outra casa à vista, o que significava que não haveria outras famílias por perto nem meninos com quem brincar, fossem amigos ou fossem encrenca.
A casa de Berlim era enorme, e, mesmo tendo morado lá durante nove anos, ele sempre conseguia encontrar novos cantos e passagens que ainda não tinha explorado inteiramente. Havia até mesmo cômodos – como o escritório do pai, onde era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção – nos quais ele estivera apenas uma ou outra vez. A casa nova, contudo, tinha só três andares: o andar de cima, onde ficavam todos os três quartos e um único banheiro, o andar térreo, com a cozinha, a sala de jantar e um escritório novo para o pai (que ele presumia apresentar as mesmas restrições do antigo), e o porão, onde dormiam os criados.
À volta toda a casa antiga de Berlim havia outras ruas com casas grandes, e, ao se chegar ao centro da cidade, havia sempre gente caminhando e parando para conversar umas com as outras, ou correndo e dizendo que não tinham tempo para parar, hoje não, não quando havia cento e uma coisas a se fazer. Eram lojas com lustrosas fachadas comerciais, e bancas de frutas e legumes repletas de bandejas em que se erguiam pilhas altas de repolhos, cenouras, couves-flores e milho. Algumas transbordavam de alho-poró e cogumelos, nabos e couves-de-bruxelas; outras estavam cheias de alface e feijões-verdes, abobrinhas e pastinacas. Às vezes ele se divertia ficando bem na frente dessas bancas, cerrando os olhos e respirando seus aromas, sentindo a cabeça rodopiar com os cheiros misturados da doçura e da vida. Mas, ao redor da casa nova, não havia outras ruas, ninguém caminhando por lá ou correndo por ali, e certamente nada de lojas, nem de bancas de frutas e legumes. Quando fechava os olhos, tudo ao seu redor parecia simplesmente vazio e frio, como se ele estivesse no lugar mais solitário do mundo. No meio de lugar nenhum.
Em Berlim havia mesas postas na rua, e, de vez em quando, ao caminhar para casa vindo da escola com Karl, Daniel e Martin, via homens e mulheres sentados nessas mesas, bebendo refrescos espumantes e rindo alto; as pessoas sentadas naquelas mesas deviam ser muito engraçadas, ele costumava pensar, porque, não importava o que dissessem, alguém sempre ria. Porém, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ninguém jamais ria por lá; que não havia motivo para riso e nada com que se alegrar.
“Acho que isso foi uma má idéia”, disse Bruno algumas horas depois de terem chegado, enquanto Maria estava desfazendo suas malas no andar de cima. (Maria não era a única criada na casa, inclusive: havia outras três, bastante magras e que só se comunicavam por meio de sussurros. Havia também um velho que, segundo lhe disseram, deveria preparar-lhes os legumes todo dia e servi-los à mesa, e cujo semblante era sempre infeliz, mas também um pouco bravo.)
“Não temos o luxo de achar coisa alguma”, disse a mãe, abrindo a caixa que continha o jogo de sessenta e quatro taças com o qual o vovô e a vovó a haviam presenteado por ocasião do casamento com o pai. “Há pessoas que tomam todas as decisões em nosso nome.”
Bruno não sabia o que ela queria dizer com isso e fingiu que a mãe nada dissera. “Acho que isso foi uma má idéia”, ele repetiu. “Acho que o melhor a fazer seria esquecer tudo isto e simplesmente voltar para casa. Podemos considerar que valeu como experiência”, acrescentou ele, frase que aprendera recentemente e que estava determinado a empregar com a maior freqüência possível.
A mãe sorriu e depositou os copos cuidadosamente sobre a mesa. “Tenho mais uma frase para você aprender”, ela disse. “É a seguinte: temos que procurar fazer o melhor de uma situação ruim.”
“Bem, eu não sei se temos mesmo”, disse Bruno. “Acho que você devia dizer ao papai que você mudou de idéia e que, bem, se tivermos de ficar aqui pelo resto do dia e jantar aqui esta noite e dormir aqui já que estamos cansados da viagem, então tudo bem, mas seria melhor levantar bem cedo amanhã, se quisermos chegar a Berlim antes da hora do chá.”
A mãe suspirou. “Bruno, por que você não sobe logo e vai ajudar a Maria a desfazer as suas malas?”, ela perguntou.
“Mas não faz sentido desfazer as malas se nós só vamos...”
“Bruno, vá logo, por favor!”, disse ela, ríspida, pois aparentemente não havia problema se ela o interrompesse, embora na situação contrária não funcionasse assim. “Estamos aqui, já chegamos, e este será nosso lar durante o futuro previsível, e é melhor que tentemos aproveitar o que for possível. Está entendendo?”
Ele não sabia o que queria dizer “futuro previsível” e disse isto a ela.
“Significa que é aqui que nós moramos agora, Bruno”, disse a mãe. “E chega deste assunto.”
Bruno sentiu uma dor na barriga e percebeu algo crescendo dentro dele, alguma coisa que, quando conseguisse sair das maiores profundezas de dentro dele até o mundo exterior, o faria gritar e berrar que tudo aquilo era errado e injusto e um grande engano pelo qual alguém haveria de pagar algum dia, ou, em vez disso, simplesmente o faria desmanchar-se em lágrimas. Ele não conseguia compreender como tudo acontecera. Num dia ele estava perfeitamente alegre, brincando em casa, com os três melhores amigos da vida toda, escorregando pelos corrimãos, tentando ver toda a cidade de Berlim da ponta dos pés, e agora estava encalhado nesta casa fria e desagradável, com três criadas sussurrantes e um servente que era a um só tempo infeliz e bravo, onde ninguém parecia ser capaz de rir novamente.
“Bruno, quero que suba e desfaça as malas e quero que vá agora”, disse a mãe numa voz pouco amigável, e ele sabia que ela estava falando sério, então deu meia-volta e marchou para o outro lado, sem dizer mais nenhuma palavra. Ele sentia as lágrimas brotando sob seus olhos, mas estava determinado a não deixa-las aparecer.
Bruno subiu as escadas e virou-se lentamente numa volta completa, na esperança de encontrar uma pequena porta ou cubículo que pudesse afinal ser explorado decentemente, mas não havia nada. Naquele piso havia apenas quatro portas, duas de cada lado, de frente umas para as outras. A porta de seu quarto, a porta do quarto de Gretel, a porta do quarto da mãe e do pai e a porta do banheiro.
“Aqui não é minha casa e nunca vai ser”, ele murmurou, enquanto atravessava a sua própria porta para encontrar todas as suas roupas espalhadas sobre a cama e as caixas de brinquedos e livros ainda fechadas. Era óbvio que Maria não tinha estabelecido suas prioridades direito.
“Mamãe mandou eu ajudar”, ele disse baixinho, e Maria acenou e apontou para uma sacola grande, contendo todas as suas meias, e cuecas, e camisetas.
“Se você separar tudo isto, pode colocar no baú de gavetas bem ali”, ela disse, apontando para um baú grosseiro que ficava do outro lado do quarto, junto a um espelho coberto de pó.
Bruno suspirou e abriu a sacola; estava cheia até a boca com as suas cuecas, e ele queria apenas rastejar para dentro dela e torcer para que, quando tornasse a rastejar para fora, ele acordasse e estivesse em casa novamente.
“O que você acha de tudo isso, Maria?”, ele perguntou após um longo silêncio, pois sempre gostara de Maria e a considerava um membro da família, embora o pai dissesse que ela era apenas uma criada, e muito bem paga por sinal.
“Tudo isso o quê?”, perguntou ela.
“Isso”, disse ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Vir a um lugar como este. Não acha que cometemos um grave engano?”
“Isto não cabe a mim dizer, senhor Bruno”, disse Maria. “Sua mãe já lhe explicou sobre o trabalho de seu pai e...”
“Ah, eu já cansei de ouvir sobre o trabalho do meu pai”, disse Bruno, interrompendo-ª “É só disso que se fala, se é que você não sabe. O trabalho do papai isso e aquilo. Bem, se o trabalho do meu pai significa que temos de mudar da nossa casa, para longe do corrimão-escorregador e dos meus três melhores amigos, então acho que meu pai devia pensar duas vezes a respeito do trabalho dele, não acha?”
Neste exato momento houve um ranger no corredor do lado de fora, e Bruno viu a porta do quarto da mãe e do pai se abrir, deixando uma pequena fresta à vista. Ele congelou, incapaz de se mover por um momento. A mãe ainda estava no andar de baixo, o que significava que o pai estava lá dentro e era bem capaz que tivesse escutado tudo o que Bruno acabara de dizer. Ele observou a porta, mal ousando respirar, imaginando se o pai sairia de lá e o levaria para baixo para uma conversa séria.
A porta se abriu mais, e Bruno deu um passo atrás conforme apareceu uma figura, porém não era o pai. Era um homem bem mais jovem, e também mais baixo que o pai, embora usasse um tipo de uniforme igual, mas sem o mesmo número de condecorações. Ele parecia muito sério, e o quepe estava bem preso à cabeça. Ao redor das têmporas, Bruno viu que seu cabelo era bem loiro, num tom de amarelo quase sobrenatural. Ele trazia uma caixa nas mãos e caminhava em direção à escada, no entanto parou por um instante quando viu Bruno ali o observando. Ele mediu o garoto de cima a baixo, como se jamais tivesse visto uma criança antes e não soubesse ao certo o que fazer com uma: se devia comê-la, ignorá-la ou chutá-la escada abaixo. Em vez disso, acenou brevemente com a cabeça e seguiu seu caminho.
“Quem era esse?”, perguntou Bruno. O jovem parecera tão sério e ocupado que ele presumiu ser uma pessoa de grande importância.
“Creio que era um dos soldados de seu pai”, disse Maria, que ficara bem ereta quando o jovem apareceu e mantivera as mãos diante de si como numa prece. Ela voltara os olhos para o chão em vez de olhar para o seu rosto, como se temesse ser transformada em pedra se olhasse diretamente para ele; e só relaxou quando o jovem se foi. “Nós vamos conhecê-los com o tempo.”
“Acho que não gostei dele”, disse Bruno. “Ele era sério demais.”
“Seu pai também é muito sério”, disse Maria.
“Sim, mas ele é o papai”, explicou Bruno. “Pais devem ser sérios. Não importa se são quitandeiros ou professores ou chefs de cozinha ou comandantes”, disse ele, relacionando todas as profissões que sabia serem exercidas por pais decentes e respeitáveis e em cujos títulos pensara mil vezes. “E não acho que aquele homem se parecia com um pai. Embora ele fosse muito sério, não há dúvida disso.”
“Bem, eles têm empregos muito sérios”, disse Maria com um suspiro. “Ou ao menos é o que eles pensam. Mas, se eu fosse você, ficaria longe dos soldados.”
“Parece que não há outra coisa a se fazer por aqui além disso”, disse Bruno, triste. “Acho que não haverá sequer outras crianças com quem brincar além de Gretel, e que graça há nisso afinal de contas? Ela é um Caso Perdido.”
Ele sentiu como se fosse chorar novamente, mas se conteve, pois não queria parecer um bebê na frente de Maria. Olhou ao redor do quarto sem erguer completamente os olhos do chão, tentando ver se havia algo de interessante para ser achado. Não havia. Ou não parecia haver. Mas, então, uma coisa lhe chamou a atenção. No canto do quarto que ficava de frente para a porta havia uma janela do teto descia pela parede, um pouco como aquela no andar de cima da casa de Berlim, ainda que não tão alta. Bruno observou-a e pensou que poderia ver o lado de fora sem mesmo ter de ficar nas pontas dos pés.
Ele caminhou lentamente na direção da janela, na esperança de que fosse possível ver todo o caminho de volta até Berlim, e a sua casa e as ruas ao redor e as mesas onde as pessoas se sentava e bebiam os refrescos espumantes e contavam histórias hilariantes umas às outras. Andou devagar porque não queria se decepcionar. Mas era apenas o quarto de um menino pequeno e não havia muito espaço para caminhar até chegar à janela. Bruno pôs o rosto junto ao vidro e olhou o que estava do lado de fora, e desta vez, quando seus olhos se arregalaram e a boca fez o formato de um O, as mãos ficaram bem juntas ao corpo, porque havia algo que o fez se sentir muito inseguro e com frio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário